Em 2004, o governo brasileiro ganhava o Prêmio Unesco na categoria Direitos Humanos e Cultura da Paz. Era o resultado do sucesso da campanha lançada pelo então Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de entrega voluntária à Polícia Federal de armas de fogo. Quase 500 mil armas foram entregues e no ano seguinte, 2005, os homicídios caíram no Brasil em 12%. A iniciativa vinha na esteira da promulgação da Lei 10.826/2003, o chamado Estatuto do Desarmamento, que estabelecia regras mais rigorosas para o acesso a armas de fogo e que, em dezembro deste ano, completará 20 anos.
Dentre vários dispositivos, o Estatuto, encaminhado em julho de 2003, restringiu a posse de armas e proibiu o porte para civis, transferiu das polícias estaduais para a Polícia Federal a atribuição de autorizar o porte de armas, estabeleceu maior controle sobre a venda de munições e tipificou o tráfico de armas como crime específico. O Estatuto foi aprovado após apenas cinco meses de tramitação.
Obviamente sabemos que, para termos um país seguro, é preciso uma abordagem integral e sistêmica do problema da segurança, que envolve conhecimento aprofundado do problema, investimentos em ações de prevenção e melhoria do aparato repressivo. Mas é fato que, num país em que cresce o número de assassinatos por armas de fogo de mão (revólveres, pistolas e garruchas) – em 2021, na contramão da queda de homicídios, a alta foi de 24% – uma efetiva política pública de controle de armas é peça fundamental. O Estatuto do Desarmamento foi a primeira no Brasil.
“Estudos brasileiros e internacionais coincidem sobre a necessidade de os governos retirarem de circulação armas de fogo ilegais e exercerem um rigoroso controle sobre aquelas que têm seu porte autorizado caso queiram diminuir a taxa de homicídios, a violência urbana e a própria criminalidade. Foi esse um dos eixos de atuação do Ministério da Justiça sob meu comando”, escreveu Márcio Thomaz Bastos na autobiografia que nunca terminou de escrever.
Em 2017, o Atlas da Violência revelou como o Estatuto do Desarmamento ajudou a frear a taxa de crescimento dos homicídios no país. O estudo do Ipea mostrava que, nos 14 anos anteriores ao Estatuto, os assassinatos por arma de fogo no Brasil cresciam em média 5,5% ao ano. Depois do Estatuto, de 2003 a 2017, essa taxa caiu para menos de 1% ao ano.
A partir de 2019, no governo de Jair Bolsonaro, a prioridade de campanha do ex-presidente foi a facilitação do acesso a armas de fogo. Conforme levantamento do Instituto Sou da Paz, foram mais de 40 decretos, portarias e outras decisões executivas que alteraram o Estatuto do Desarmamento e flexibilizaram o acesso para a compra de armas e munições no país. Como consequência, as armas nas mãos de civis quase triplicaram. Passaram de 695 mil para 1,9 milhão, somando registros da Polícia Federal e do Exército.
Um levantamento exclusivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indica que mais de 6,3 mil assassinatos poderiam ter sido evitados no Brasil se a gestão de Jair Bolsonaro não tivesse flexibilizado a comercialização de armas de fogo e munições.
Em seu primeiro dia de seu terceiro mandato na Presidência da República, 2 de janeiro deste ano de 2023, o presidente Lula editou decreto que revoga uma série de normas do governo Jair Bolsonaro que facilitavam e ampliavam o acesso da população a armas de fogo e munição.
Retomar uma política responsável de controle de armas é medida essencial não só no âmbito da política nacional de segurança pública, mas também no âmbito das políticas de promoção da igualdade racial e de gênero, visto que a violência armada é um dos mecanismos que contribuem para a manutenção do racismo e da violência contra a mulher na sociedade brasileira.
Também este ano, em 5 de março, as Nações Unidas marcaram pela primeira vez o Dia Internacional do Desarmamento e Conscientização sobre a Não-Proliferação, evocando a cultura de paz. A História há de fazer justiça a Márcio Thomaz Bastos pela ousadia de ter rompido os mais fortes obstáculos, nesse combate sem tréguas que continuamos enfrentando.